Dano Moral — Mero Aborrecimento

931 casos com esta tese
Casos analisados
931
% parcial (50/50 e afins)
77%
% pró-banco
17%
% pró-consumidor
6%
Mediana do custo
R$ 8.818,00
75% dos casos custaram até R$ 25.557,00
96 casos com Itaú como parte (10%)

Estudo aprofundado

Mesmo quando a fraude foi reconhecida e a restituição material se impõe, o dano moral não é presumido (in re ipsa) em fraude bancária — exige-se prova concreta de repercussão extrapatrimonial (negativação em SPC/Serasa, cobrança vexatória, protesto, comprometimento da subsistência); a ausência dessa prova confina o transtorno a "mero aborrecimento" não indenizável.

universo (3 bancos focais)71 casos
banco vence moral63%
resultado parcial35%
mediana moral fixadoR$ 0

O argumento canônico

A tese do "mero aborrecimento" é um filtro de segunda etapa: só opera quando o banco já perdeu no mérito material. Em 99% dos casos do corpus classificados com esse slug principal, a inexigibilidade do débito já foi reconhecida, a restituição material foi decretada, e a única pendência recursal é a indenização por abalo à esfera extrapatrimonial. É, por isso, uma tese assimétrica — ataca o quantum, não o cabimento.

O núcleo argumentativo tem três pilares. Primeiro, a premissa conceitual: dano moral exige "ofensa a direitos da personalidade" (CF art. 5º X, CC art. 11) ou violação significativa à dignidade. Transtornos ordinários — tempo gasto em atendimento, frustração, contrariedade — ficam abaixo desse patamar. Segundo, a exigência probatória: não basta alegar abalo psicológico; é preciso demonstrar por documentos concretos (comprovante de negativação, certidão de protesto, extrato de pensão comprometida). Terceiro, a jurisprudência recente do STJ — REsp 2.161.428/SP (Moura Ribeiro, 11/03/2025) e AgInt nos EDcl no REsp 2.121.413/SP (Raul Araújo, 16/09/2024) — que explicitamente abandonou a presunção in re ipsa em fraudes contratuais sem abalo comprovado.

O padrão probatório mais consolidado é a distinção SCR × SPC/Serasa fixada pela 18ª CDPriv em Apel. 1009904-32.2025 (Israel Góes dos Anjos). O SCR (Sistema de Informações de Crédito) do Banco Central é cadastro prudencial, destinado à supervisão da carteira das instituições — não gera dano moral quando nele permanece anotação de débito já declarado inexigível. O SPC/Serasa/SCPC, por outro lado, são cadastros restritivos acessíveis a terceiros — geram dano moral in re ipsa. A distinção vale R$ 5-10k em cada caso.

Há uma segunda vertente do "mero aborrecimento" que opera quando há culpa concorrente da vítima: o dano moral é afastado porque a conduta negligente do autor quebra o in re ipsa. Tese consolidada no Núcleo 4.0 e nas 19ª/22ª CDPriv — e que o corpus reforça: mesmo quando a hipervulnerabilidade etária afasta o art. 945 CC no plano material (paradigma REsp 2.052.228/DF, Nancy Andrighi), os votos ainda modulam o moral quando a cadeia causal aponta participação voluntária da vítima, desde que ausente negativação. Uma terceira vertente ancora-se em restituição administrativa rápida pelo próprio banco: quando o estorno ocorre em 1-5 dias, o transtorno é considerado neutralizado — caso 1003188-74.2025 (Simões de Almeida, reembolso em 5 dias = moral afastado).

Há ainda uma fratura conceitual importante: a atipicidade aritmética — volumes e velocidades flagrantemente anômalos (116 PIX em 3h, 13 TED em 2 dias, 6 empréstimos em 10 min) — elide a culpa concorrente no plano material, mas não implica automaticamente dano moral presumido. O teste do "mero aborrecimento" aplica-se em segunda etapa, de forma autônoma: mesmo reconhecida a falha do banco por atipicidade, o moral ainda exige prova de repercussão extrapatrimonial concreta. A exceção são os casos de comprometimento vital da subsistência — onde o impacto patrimonial extremo (descontos em benefício previdenciário, necessidade de empréstimo para sobrevivência) eleva o patamar a in re ipsa mesmo sem negativação formal.

Como os relatores articulam

“O Sistema de Informação de Crédito (SCR) tem por finalidade prover informações ao Banco Central do Brasil para fins de supervisão do risco de crédito... O SCR não pode ser considerado um cadastro restritivo”

— Des. Israel Góes dos Anjos · 18ª CDPriv · Apel. 1009904-32.2025 · j. abril/2026

“a utilização do cartão de crédito da autora de forma fraudulenta, mas desacompanhada de consequências extraordinárias, não ultrapassa a barreira do mero inadimplemento contratual e do mero aborrecimento”

— Des. Sandra Galhardo Esteves · 12ª CDPriv · Apel. 1008561-32.2024 · j. 27/03/2026

“embora a autora tenha experimentado transtornos, frustração e prejuízo patrimonial, tais circunstâncias decorrem preponderantemente de sua própria conduta imprudente e da ação criminosa de terceiros, não configurando ofensa a direitos da personalidade imputável exclusivamente ao réu”

— Des. Daniel Blikstein · 37ª CDPriv · Apel. 1000224-87.2025 · j. 18/03/2026

“Embora a situação vivenciada tenha sido desagradável, a ausência de prejuízo financeiro em função da célere resolução administrativa e a demora no ajuizamento da lide denotam que o episódio não teve o condão de violar os direitos da personalidade da autora ou causar-lhe abalo psicológico significativo.”

— Des. Mara Trippo Kimura · Núcleo 4.0-T.III · Apel. 1004526-26.2024 · j. 12/02/2026

“A teoria do desvio produtivo do consumidor não se aplica indistintamente a qualquer situação em que o consumidor tenha que despender de seu tempo para resolver problemas junto ao fornecedor. Sua aplicação deve ser reservada para casos em que se verifica efetiva conduta abusiva”

— Des. Olavo Sá · Núcleo 4.0-T.I · Apel. 1001663-86.2024 · j. 03/03/2026

O padrão discursivo é consistente: o voto não nega o transtorno — reconhece-o como "desagradável" — mas nega que ultrapasse o mero dissabor. A fórmula "não ultrapassa a barreira do mero aborrecimento" aparece em dezenas de votos como expressão pronta, não como análise casuística.

Quando funciona — cenários de afastamento do dano moral

  • Ausência absoluta de negativação em SPC/Serasa — cenário mais consolidado. Presente em praticamente 100% dos afastamentos bem-sucedidos.
  • Restituição administrativa rápida (1-5 dias) — estorno no 1º dia útil afasta integralmente a indenização moral. Paradigmas: 1004526-26.2024 (Mara Trippo Kimura) e 1003188-74.2025 (Simões de Almeida).
  • Culpa concorrente da vítima — fornecimento de credenciais, instalação de app remoto → moral afastado por quebra do in re ipsa. Paradigmas: 1000224-87.2025 (Daniel Blikstein), 1000657-09.2025 (Júlio César Franco), 1000752-39.2025 (Heraldo de Oliveira).
  • Apontamento apenas no SCR (BCB), não em SPC/Serasa — distinção técnica da 18ª Câmara. Paradigma: 1009904-32.2025 (Israel Góes dos Anjos).
  • Valor baixo + restituição em dobro já concedida — R$ 874,86 + dobra dispensa dano moral adicional. Paradigma: 1001663-86.2024 (Olavo Sá) — desvio produtivo rejeitado.
  • Demora excessiva do autor em ajuizar (≥9 meses) — demora denota ausência de abalo relevante. Paradigma: 1004526-26.2024 — 9 meses = sem moral.
  • Prejuízo patrimonial puro sem repercussão externa — aplicação expressa da "viragem" do REsp 2.161.428/SP. Paradigma: 1008561-32.2024 (Galhardo Esteves).

Outros paradigmas recentes

Quando falha — cenários em que o dano moral é reconhecido

  • Negativação em SPC/Serasa — in re ipsa automático. Casos 1002381-37.2025 (Santini Teodoro, R$ 10k) e 1012196-72.2024 (Daniella Carla Russo, R$ 5k).
  • Descontos em benefício previdenciário de idoso — verba alimentar gera moral presumido; valores típicos R$ 3k-8k. Casos 1003725-87.2024 (Márcia Rezende) e 1005157-09.2024 (Léa Duarte).
  • Valor expressivo + hipervulnerabilidade + empréstimo para subsistência — comprometimento vital eleva o moral a R$ 5k-10k. Caso 1166131-02.2024 (Morsello).
  • Hipervulnerabilidade etária documentada + falha de monitoramento cumulativa — o REsp 2.052.228/DF (Nancy Andrighi, 12/09/2023) pode elevar o patamar moral mesmo sem negativação quando há comprometimento de subsistência. Casos do corpus: 20339007 (Mello Belli, 19ª CDP), 20356665 (Núcleo 4.0-T.VII), 20274029 (Migliano Neto, 23ª CDP).
  • Recusa administrativa expressa do banco — mesmo em câmaras conservadoras, a recusa explícita a solução extrajudicial vira gatilho. Sergio Gomes em Apel. 1001605-92.2025 (23ª CDPriv) manteve R$ 5.000 pela "inconcebível recusa à solução extrajudicial" em cartão retido Bradesco.
  • Cobrança após trânsito em julgado de inexigibilidade — descumprimento de coisa julgada agrava moral. Caso 1012358-29.2024 (Battaus Neto).
  • Exposição de dados com risco específico (LGPD) — dano moral por exposição de dados, não por fraude financeira. Caso 1103129-58.2024 (Jorge Tosta).
  • Descumprimento de liminar + ausência de comunicação do banco — R$ 12k em golpe de maquininha com negativação após ordem judicial. Caso 1017551-44.2024 (José Wagner Peixoto).

Provas e requisitos que pesam

A favor do banco (afastar o dano moral)

  • Certidão negativa de SPC/Serasa — prova mais eficaz; ausência de negativação é quase sempre determinante.
  • Comprovante de estorno rápido (1-5 dias após o golpe) — neutraliza o transtorno.
  • BO e narrativa que comprovam conduta negligente da vítima (senha fornecida, app instalado) — aciona a vertente da culpa concorrente.
  • Ausência de protesto ou cobrança vexatória documentada.
  • Demora do autor em ajuizar (≥9 meses) — denota ausência de abalo relevante.

A favor do autor (manter/obter o dano moral)

  • Extrato SPC/Serasa com o débito — gera in re ipsa automático; um único dia de negativação basta.
  • Certidão de protesto.
  • Descontos em conta-salário ou aposentadoria — gera in re ipsa por verba alimentar.
  • Empréstimos contraídos para cobrir o prejuízo — demonstra comprometimento à subsistência.
  • Histórico de cobranças por telefone/e-mail/carta — demonstra constrangimento persistente.
  • Hipervulnerabilidade etária documentada + falha de monitoramento cumulativa — eleva o patamar mesmo sem negativação (REsp 2.052.228/DF).

Contra-argumentos eficazes

Fundamentos jurídicos centrais

  • CF art. 5º V e X — dano moral como direito fundamental.
  • CC arts. 186 e 927 — ilicitude e indenização; base da responsabilidade civil.
  • Súmula 479/STJ — reconhecida no material, frequentemente modulada no moral.
  • REsp 2.161.428/SP (STJ, Moura Ribeiro, 11/03/2025) — leading case recente: afasta in re ipsa em fraudes contratuais sem abalo comprovado.
  • AgInt nos EDcl no REsp 2.121.413/SP (Raul Araújo, 16/09/2024) — reforço da viragem.
  • REsp 2.215.907/SP (02/09/2025) — âncora processual recente; consolida o teste de repercussão extrapatrimonial em fraude bancária.
  • Súmula 227/STJ — dano moral de PJ exige ofensa à honra objetiva.
  • AgInt nos EDcl no AREsp 1.669.683/SP (Bellizze, 23/11/2020) — "fraude bancária, por si só, não caracteriza dano moral".
  • REsp 2.052.228/DF (Nancy Andrighi, 12/09/2023) — counter-leading case: quando há atipicidade + falha de monitoramento + hipervulnerabilidade etária, in re ipsa pode ser reconhecido mesmo sem negativação.
  • EAREsp 2.715.690/SP — dever de monitoramento exige prova específica de falha; não gera moral automático.
  • CDC art. 54-G, I-III — boa-fé objetiva e desvio do tempo produtivo. Crescente no Núcleo 4.0.

Variação por câmara / relator

A matéria é o segundo eixo de maior divergência do TJSP depois do dever de monitoramento. Três blocos coexistem. O bloco restritivo (afasta facilmente) concentra Israel Góes e Zanluqui na 18ª, Jairo Brazil na 19ª, Júlio César Franco e Mario Leite na 22ª, Peixoto, Kodama e Daniel Blikstein na 37ª. A fórmula "material sim, moral não" está consolidada.

O bloco intermediário — 11ª (Tossi Silva), 12ª (Castro Figliolia, Galhardo Esteves), 13ª (Giaquinto, Márcio Laranjo), Núcleo 4.0-T.I, T.III, T.V — reconhece moral quando há negativação/protesto/verba alimentar e afasta quando há apenas patrimônio.

O bloco expansivo (reconhece com frequência) está na 16ª (Batista Alves, Ielo Amaro, Alexandre Coelho), 20ª (Rebello Pinho), Núcleo 4.0-T.IV (Léa Duarte) e Núcleo 4.0-T.VII (Márcia Rezende, Custodio da Silveira). Aceitam in re ipsa em consignado de idoso, exposição de dados e falha persistente.

A "viragem do STJ" de 2024-2025 (REsp 2.161.428/SP) está reforçando o bloco restritivo de forma consistente. Cresce a proporção de casos em que o dano moral é afastado mesmo sem negativação; a tendência é convergência ao redor do critério "ausência de negativação + estorno rápido = sem moral". O EAREsp 2.715.690/SP aprofunda essa tendência: mesmo em câmaras que reconhecem o dever de monitoramento, o moral exige prova adicional específica.

top 10 câmaras que mais julgam essa tese · banco / parcial / consumidor
  • NJ4.0 T.II DP213%·9%70
  • NJ4.0 T.V DP212%·2%65
  • 11ª CDPriv6%·5%64
  • NJ4.0 T.I DP212%·7%59
  • NJ4.0 T.VII DP221%·4%57
  • 12ª CDPriv23%·6%53
  • NJ4.0 T.VIII DP218%·0%51
  • 37ª CDPriv22%·4%45
  • 20ª CDPriv13%·7%45
  • 19ª CDPriv7%·5%44
pró-bancoparcialpró-consumidor

O ônus probatório em jogo

O afastamento do dano moral se impõe quando o autor não produz qualquer prova concreta de repercussão extrapatrimonial — e essa insuficiência probatória é hoje o vetor dominante. A peça mais eficaz do banco é, paradoxalmente, documentar a ausência: certidão negativa, ausência de protocolos de cobrança, estorno rápido. Do lado do autor, a estratégia é a inversa: produzir prova de repercussão externa ainda que mínima — um único dia de negativação basta; se não há negativação, buscar prova de empréstimo contraído para cobrir o prejuízo, comprometimento de verba alimentar, bloqueio de acesso a serviços. Narrativa genérica ("angústia", "sofrimento") não convence em 2026.

Sub-padrões dentro da tese

A categoria dano_moral_mero_aborrecimento é conceitualmente útil mas operacionalmente imprecisa. Ela rotula o resultado (afastamento do dano moral), não a tese substantiva subjacente. Na prática, os casos assim classificados têm como tese principal Falha do Serviço · Súmula 479 ou Culpa Concorrente 50/50 — o "mero aborrecimento" é conclusão de um capítulo secundário. O corpus de 979 extratos lidos reforça essa leitura e aponta para uma migração futura para TAG transversal (dano_moral_afastado) aplicável a qualquer tese principal, com qualificadores:

  1. Sem negativação (cluster paradigmático) — ausência de SPC/Serasa é o núcleo duro. Aplica-se em praticamente 100% dos afastamentos bem-sucedidos.
  2. Por culpa concorrente — variante consolidada no Núcleo 4.0 e nas 19ª/22ª. Acopla ao ensaio da culpa concorrente.
  3. Por restituição rápida — estorno administrativo em 1-5 dias neutraliza o transtorno. Paradigma: 1004526-26.2024 (Mara Trippo Kimura).
  4. SCR × SPC (distinção técnica) — apontamento apenas no cadastro prudencial do BCB não gera moral. Paradigma: 1009904-32.2025 (Israel Góes dos Anjos).
  5. Prejuízo patrimonial puro — aplicação da viragem do REsp 2.161.428/SP. Paradigma: 1008561-32.2024 (Galhardo Esteves).

A tese-espelho é o ensaio Dano Moral in re ipsa (45 principais, 1.205 acessórias no corpus). As duas categorias são faces da mesma moeda — quando uma falha, a outra tende a ser invocada — e o estudo recomenda tratá-las como par conceitual no argumento defensivo.

Como usar na prática — defesa do banco

Quando o mérito material já foi perdido (inexigibilidade do empréstimo, restituição do PIX), a tese do mero aborrecimento é o principal vetor de contenção de custos para o banco. Em casos típicos, a diferença entre "R$ 5.000 moral" e "moral afastado" supera o próprio valor do material. A defesa deve trabalhar em duas frentes: contestação + fase probatória.

Combo probatório — como ler esta tese

Posição do banco: mesmo quando o autor vence o material, o moral pode ser afastado se o fator 6 do combo pró-consumidor (negativação/verba alimentar → in re ipsa) estiver ausente. Este é o fator mais importante para sustentar moral elevado — sem ele, R$ 5-10k vira afastamento.

Pró-banco

7 fatores · 5+ = banco vence ~90%

  • #1Credenciais tecnicamente autenticáveis46%
  • #2Logs de autenticação juntados pelo banco (checklist de 8 elementos)36%
  • #3Operação dentro do app oficial, não canal externo62%
  • #4Demora do autor em reclamar (> 3 meses)21%
  • #5Autor não pediu perícia digital57%
  • #6Valores dentro/próximos do perfil histórico30%
  • #7Comportamento contraditório do autor (usou o dinheiro creditado)★16%

Pró-consumidor

6 fatores · 4+ = consumidor vence ~90%

  • #1Valor 3× ou mais acima do limite diário ou do padrão histórico38%
  • #2Múltiplas operações em janela curta (< 48h)44%
  • #3Padrão radicalmente dissonante do histórico da conta28%
  • #4Resgate integral de aplicações financeiras11%
  • #5Banco não enviou alerta nem fez bloqueio preventivo49%
  • #6Negativação em cima → dano moral in re ipsa OU desconto em verba alimentar (L2)★15%

Onde essa tese vinga

Anatomia estatística

Precedentes-âncora

súmulas, artigos e REsps citados nos votos

Contrapontos rebatidos

alegações do autor afastadas pelos relatores

Recomendações práticas

ações sugeridas pro advogado do banco

Combo probatório

Posição do banco: mesmo quando o autor vence o material, o moral pode ser afastado se o fator 6 do combo pró-consumidor (negativação/verba alimentar → in re ipsa) estiver ausente. Este é o fator mais importante para sustentar moral elevado — sem ele, R$ 5-10k vira afastamento.

379 extratos lidos · 4.028 acórdãos· 13 fatores calibrados· 6 zonas de modulação· peso dobrado: fatores com ★

Combo pró-banco

7 fatores · 5+ = banco vence (~90%)

Combo pró-consumidor

6 fatores · 4-6 = consumidor vence (~90%)

Matriz de desfechos por faixa de fatores

Combo pró-banco
FaixaNBancoParc.Cons.
6-7 de 718100%0%0%
4-5 de 77580%15%5%
2-3 de 711040%40%20%
0-1 de 71768%32%60%
Combo pró-consumidor
FaixaNBancoParc.Cons.
5-6 de 6620%10%90%
3-4 de 611510%38%52%
1-2 de 615535%43%22%
0 de 64779%15%6%

Combo misto (2-3 × 2-3) domina o corpus — ~125 extratos dos 379 lidos. Nesses casos, a proporção não é automaticamente 50/50: ela modula conforme a câmara julgadora, como mostra o mapa abaixo.

Zonas de modulação · o mapa de quem divide quanto

Por que esse estudo existe. Quando há culpa concorrente, o art. 945 do CC abre a porta pra dividir o prejuízo — mas não diz em que proporção. Lendo os 379 acórdãos em profundidade, mapeamos 6 padrões recorrentes de como as câmaras do TJSP efetivamente dividem.

O que ele diz. A mesma configuração probatória pode sair 50/50 na Valeria Longobardi, 60/40 banco na Márcia Rezende ou 75/25 contra o banco receptor na 14ª CDP. A câmara de distribuição manda tanto quanto os fatores do caso. Saber em qual zona seu caso cai antes do julgamento muda o cálculo de risco e o desenho da peça.

50/50
50/50

Modulação clássica art. 945 CC. Quando o combo apresenta 2-3 fatores de cada lado em câmaras generalistas, o relator divide meio-a-meio o prejuízo material e costuma afastar o dano moral.

Câmaras ·
Núcleo 4.0-T.I, Núcleo 4.0-T.II, Núcleo 4.0-T.VIII
Relatores ·
Valeria Longobardi, João Battaus Neto, Daniel Issler, Thomaz Carvalhaes Ferreira
Casos paradigma
8
  • 1004267-46.2024· Valeria Longobardi

    Paradigma do 50/50. Spoofing reconhecido + credenciais autenticadas — culpa concorrente pura.

  • 1013074-23.2025.8.26.0554· Valéria Longobardi

    Falsa central · Bradesco mantido condenado a 50% dos R$ 112 mil em PIX e caixa eletrônico por falha em bloquear transações atípicas ao perfil (Súmula 479).

  • 1001098-40.2025.8.26.0062· João Battaus Neto

    Golpe do WhatsApp · Bradesco condenado a 50% (R$ 945) por falha no KYC da conta receptora; danos morais afastados por culpa concorrente da vítima.

60/40 banco
60/40

Modulação assimétrica em favor do consumidor (banco absorve 60%). Surge em casos Núcleo 4.0-T.VII com autorização manifesta de operação anômala pelo banco — o 'risco do negócio' pesa mais que a cedência de credenciais da vítima.

“a gravidade da culpa do réu, que autorizando a transação indicativa de fraude, deve ter a responsabilidade preponderada pelo risco do negócio — 60% dos prejuízos”
Câmaras ·
Núcleo 4.0-T.VII
Relatores ·
Márcia Rezende, Fabiana Calil
Casos paradigma
4
  • 1000757-96.2025· Márcia Rezende

    60% banco por autorizar transação indicativa de fraude. Paradigma da modulação assimétrica.

  • Falso advogado com empréstimo + PIX de R$ 15.944 · culpa concorrente 60% banco / 40% autor; dano moral afastado.

  • Fraude com empréstimo de R$ 4.900 e transferência imediata · 60% banco e 40% autor; inexigibilidade do débito e ressarcimento proporcional.

70/30 banco
70/30

Modulação forte contra o banco — reservada a falha bifásica grave (golpe físico na agência + ausência de bloqueio). Duas falhas decisivas do banco em momentos distintos elevam a proporção.

Câmaras ·
Núcleo 4.0-T.VII
Relatores ·
Márcia Rezende
Caso paradigma
1
  • 4003440-11.2025· Márcia Rezende

    ATM com nota falsa emitida pelo próprio caixa eletrônico + não bloqueio subsequente → 70% banco.

75/25 banco receptor
75/25

Aplicável a banco receptor da transferência em fraude com KYC falho na abertura de conta. Padrão severo da 14ª CDP — instituição receptora responde quase integralmente por deixar entrar laranja.

Câmaras ·
14ª CDP
Relatores ·
Thiago de Siqueira, Alexandre David Malfatti, Léa Duarte
Casos paradigma
6
  • 1004401-86.2025· Thiago de Siqueira

    Falso leilão · Santander receptor sem KYC documentado → 75% contra o banco receptor.

  • 1027361-22.2025.8.26.0576· Thiago de Siqueira

    Falsário abriu conta no Banco Inter · falha do banco reconhecida; dano moral afastado por ausência de prova de abalo concreto além de mero aborrecimento.

  • Golpe da OLX · empréstimos fraudulentos nulos, restituição em dobro de R$ 257 e dano moral de R$ 6 mil por fortuito interno (PicPay e Mercado Pago) (Súmula 479).

seletiva (só moral)

Culpa concorrente NÃO reduz o material — banco paga 100% — mas afasta o dano moral. Modulação não-tradicional: usa a culpa da vítima para cortar só o extrapatrimonial.

Câmaras ·
23ª CDP
Relatores ·
Lígia Araújo Bisogni
Casos paradigma
5
  • 1000131-31.2025· Lígia Araújo Bisogni

    100% material + dano moral afastado por culpa concorrente. Paradigma da modulação seletiva.

  • 1004836-02.2024.8.26.0020· Lígia Araújo Bisogni

    Falsa central com acesso remoto e transferências atípicas · Bradesco mantido condenado a R$ 60.851 em empréstimo inexigível (Súmula 479).

  • 1000659-85.2025.8.26.0205· Lígia Araújo Bisogni

    Falso advogado via WhatsApp · Bradesco condenado a restituir R$ 8.680 por falha no monitoramento; dano moral afastado por culpa concorrente (art. 945 CC).

fortuito bifásico

Decomposição do caso em duas fases: fortuito externo na contratação (banco isento) + fortuito interno na movimentação (banco responde pelo remanescente). Dobra e moral afastados.

Câmaras ·
Núcleo 4.0-T.IV
Relatores ·
Dimitrios Zarvos Varellis
Casos paradigma
6
  • 1019246-40.2025· Dimitrios Zarvos Varellis

    Fortuito externo fase contratação + fortuito interno fase movimentação → compensação do remanescente na conta + dobra afastada + moral afastado.

  • 1008435-50.2023.8.26.0127· Dimitrios Zarvos Varellis

    Consignado obtido via correspondente irregular · C6 condenado à restituição em dobro + dano moral de R$ 5 mil por desconto indevido em benefício previdenciário — fortuito interno configurado.

  • 1061557-68.2024.8.26.0506· Dimitrios Zarvos Varellis

    Falso oficial de justiça presencial · banco não impediu empréstimo de R$ 14.786 e PIX de R$ 9.999 fora do perfil; condenação mantida por falha do serviço (Súmula 479).

Casos paradigma recentes

1003603-94.2024.8.26.030221 abr 2026 · SERGIO DA COSTA LEITE · 37ª CDPrivParcialFalsa central de atendimento

TJSP reforma improcedência: reconhece culpa concorrente (50/50) em golpe de falsa central telefônica com empréstimos consignados e PIX; declara inexigibilidade de metade do empréstimo; afasta dano moral por mero aborrecimento e participação decisiva da vítima.

Dano moral afastado por ausência de demonstração de repercussão mais grave, abalo psíquico ou violação a direito da personalidade, caracterizando mero aborrecimento, agravado pela participação decisiva da própria autora na concretização do golpe.

1005455-76.2024.8.26.055420 abr 2026 · RUI PORTO DIASParcialFalsa central de atendimento

TJSP reconhece culpa concorrente 50/50 em fraude consignado INSS via WhatsApp (falso analista BMG), afasta dano moral e repetição em dobro, mantém restituição simples de 50% dos descontos para BMG e Santander.

Dano moral afastado porque não há prova de circunstância agravante (negativação, bloqueio, restrição cadastral) e a culpa concorrente relevante da consumidora impede condenação extrapatrimonial

1020178-76.2025.8.26.000120 abr 2026 · RUI PORTO DIAS · 37ª CDPrivParcialcusto R$ 1.360,00Falsa central de atendimento

Golpe falsa central: culpa concorrente 50/50 reconhecida (banco falhou no monitoramento de operações 40x a média; vítima permitiu acesso remoto); dano moral afastado; PIX R$2.720 dividido; empréstimo R$16.130,88 declarado inexigível com compensação de R$7.113,49.

Dano moral afastado em razão da contribuição ativa da consumidora para o evento danoso, ausência de inscrição em órgãos de proteção ao crédito e de situação vexatória ou intimidativa que ultrapasse os dissabores cotidianos.

1023020-21.2023.8.26.057620 abr 2026 · RUI PORTO DIAS · 23ª CDPrivParcialConsignado não contratado

TJSP dá parcial provimento ao Agibank: afasta dano moral (mero aborrecimento) e reduz restituição de dobro para simples (fraude de terceiro = engano justificável); mantém inexigibilidade do contrato consignado não comprovado.

Os danos morais foram afastados por não terem ultrapassado o mero aborrecimento inerente à vida em sociedade, sem evidência de abalo psíquico ou social ou violação de direitos da personalidade.

1000217-14.2025.8.26.053120 abr 2026 · RUI PORTO DIAS · 23ª CDPrivParcialConsignado não contratado

TJSP reforma parcialmente sentença: mantém devolução simples (não dobrada) de descontos indevidos em cartão consignado digital sem IP/selfie e afasta dano moral por mero aborrecimento.

Os danos morais foram afastados por se tratarem de meros aborrecimentos inerentes à vida em sociedade, sem evidência de abalo psíquico ou social ou ofensa a direito de personalidade.